quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Uma garrafa de vinho pela madrugada.

Bebia vinho como ao próprio sangue que jorrava da alma em palavras pela madrugada. Ato incomum, pois não bebia a alma, bebia vinho, bebia o mundo em sua taça transparente e vermelha do líquido vivo. Limpo e claro. Limpo e raro. Puro composto de experiências mundanas. Assim, era capaz de compreender as viscitudes de uma vida complexa aonde necessitaria aprender sobre seu próprio aperfeiçoamento através do seu próximo.

Se deu conta de que cada pessoa carregava em si valores e experiências que deveriam ser sustentados por sentimentos positivos, por instituições seguras. Nem sempre - ou talvez na maioria das vezes - acontecia assim entre os seus . A dor do outro era sempre maior do que a própria dor e sempre palco de platéias imensas capazes de enaltecer os sentimentos mais sórdidos em prol de beneficiar intensidades camufladas pela tristeza. Era o fardo de carregar a dor própria e engrandecê-la ainda mais ao compartilhar com a observação do outro. Ela observava o que lhes provocava a dor muito de perto e assim guardava os pensamentos certos para que sua própria dor não retornasse (uma vez que agregava a si própria a chamada experiência) e cuidava para que a dor do outro, uma vez vivenciada passivamente, jamais fosse capaz de emergir em sua própria vida, já que ela era feita de felicidade.

Os modos lhe mostraram que a intimidade das coisas supérfluas eram sempre maiores às coisas necessárias, que não provocavam alardes. O benefício do outro era justamente o alarde provocado. O mundo atual onde ela caminhava era feito de alardes, de intensidades qualquer. Porém, um mundo alarmante à dor. As conversas mais simples ouvidas dentro dos elevadores ou no caminho do trabalho eram soberanamente sobre a dor. Sobre causas, consequências e vinganças, capazes de disseminar, ao invés de experiência, ainda mais desgosto.

O mundo permanecia camuflado em cicatrizes e dores passadas. As pessoas não economizavam tentativas de suprir de esperanças vãs, ainda que a felicidade fosse descrita pela sabedoria como tão simples e diretamente ligada à felicidade plena.

Tentando consertar o passado, as pessoas permaneciam esquecidas do envolvimento com um futuro promissor. Viviam enfraquecidas pela dor do que foi vivido ao invés de se habituarem a viver as possibilidades ainda promissoras de um mundo muito melhor. Se lembravam de cicatrizes e as transferiam ao próximo como se transferissem a responsabilidade sobre sua própria felicidade à um outro ser que não fosse a si próprio.

Assim, a garota observava vidas que se escondiam em si mesmas afim de serem reconhecidas por guetos que prezavam momentos que jamais durariam os valores de uma vida inteira. Permaneciam na procura pelo todo, se desfazendo em pedaços todos os dias, em pequenos estilhaços de felicidade que rompiam a carne quando estavam sós e se projetavam diretamente ao chão de seus travesseiros confessionários, deixando lágrimas, tempestades e pequenas lembranças cuja memória curta era capaz de esquecer em instantes.

Em pouco tempo, ela observava sequelas do que haveriam de ser inicialmente motivações à favor de uma felicidade segura ir sendo drásticamente modificada pela intensidade do presente. Percebia que as pessoas fazim da felicidade sequelas do erro. Sequelas do que se tornariam ou necessitariam se tornar após um gravíssimo momento indissolúvel de estarem acompanhadas pela fantasia, de fazer durar segundos o que deveriam ser momentos eternos.

Estamos insensíveis à nós próprios. Depositamos no outro o que somos nós e esperamos que o outro reaja como nós próprios reagiríamos se estivéssemos sobriamente embriagados de nós mesmos. E se não nos reconhecemos no outro, partimos em uma busca irresponsável de "pessoas chaves" dissipando aparentes confissões e sentimentos profundos que mais são dores profundas à paixões verdadeiras. Seguimos arrastamos a dor através da troca de personagens heróicos que nos desvencilhem do passado. Acabamos continuamente trocados pela nossa dúvida e nossa fantasia, espantados com as novidades que correm ao nosso lado e não podemos abraçar. Queremos tudo e todos sem nos darmos chance de sermos inteiros e seguros para nós mesmos através de uma escolha única. Nos dizemos apegados à sentimentos mascarados pela própria cicatriz. Não somos de nós, nem de ninguém. Monstruosa e ingenuamente cruéis. Fracos. Tolos. Inconsequentes. Queremos o impossível reconhecido mérito de completarmos ao "self" e ao mundo inteiro.

Ainda assim, a vida é nossa e isso dói feito lástima sem cura. Infelizmente, não podemos submeter nossas dores à poucas reações contrárias e alheias vindas de nossas próprias mãos. À pouca vida. À pouca felicidade. Não podemos nos submeter à roda da insegurança.

Há muito para ser. 



D.