Às vezes a beleza das flores não paga o preço de vê-las cair.
Ainda me lembro das flores que recebi vivas. Que descartei ainda vivas para nunca vê-las morrer. Muito além do significado que elas me traziam, havia o medo de vê-las olhando para o chão.
O vaso mais importante e mais bonito da casa foi regado em abundante água para servir à sua beleza. Pura, alimentada. Acima de tudo, reverenciá-la era nosso dever. Mas ao prendê-la, aquilo que recolhia a água era o mesmo que a permitia misturar seus fluidos esverdeados na imensidão de pureza transparente. Mas ao sugar o próprio fluido purificado, envenenava-se. Morria aos poucos. Pois era só o que tinha dentro de si.
Não se pode beber o próprio veneno encurralado durante muito tempo. Não se pode ignorá-lo, nem mergulhar fundo no seu conhecimento. Pois teu sangue sujo é assim como o sangue de qualquer outro sujo. O esclarecimento dissipa a escuridão mas abre uma nuvem negra ainda maior ao redor da luz formada.
Pode-se ver muito mais escuridão quando se sabe onde está a luz.
Prenda-se, deixe-se prender e modificar. Depois tente chegar ao seu veneno, e irá se aventurar contra ti mesmo. No fim, estará corrompido, louco ou morto. Liberte-se. Não se deixe podar. Tente acreditar e aceitar a existência da imperfeição de seus venenos e se sentirá satisfeito em viver a paz diante de seu pequeno ponto de luz pelo resto do tempo que lhes falta.
D.