quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Algumas coisas que o amor ensina

Cada vez que se ama, aprende-se sobre o mundo e suas linhas redondas. Seus caminhos se tornam ciclos entre ir do seu mundo ao mundo do outro e tornar a rodar. A vontade de nos tornar parte da vida do outro começa a nos transformar em duas peças que, se tudo der certo, se encaixarão em uma única vida em dupla, complexa, motivadora e satisfatória.

Cada vez que se ama, aprende-se sobre formas e cores. Os olhos do outro te acrescentam o azul da parede do café que você frequenta todas as tardes, mas nunca observou. E tantas coisas mais. Vc cresce, vc amadurece e aprende a lidar com focos múltiplos e complementares.

Cada vez que se ama, aprende-se sobre saúde. Que a saúde está ligada ao prazer que sentimos em viver o que conquistamos e que a insatisfação, em qualquer âmbito, nos faz perder completamente o fio do novelo.

Cada vez que se ama, aprende-se sobre valores. Principalmente aqueles que sustentam a sintonia entre você e o outro e que, muitas vezes, você nem imaginava que eles existiam. Talvez esse seja um dos melhores ensinamentos do amor. Aprender que o outro dá partida dentro de nós para modos de vida e pensamentos que só necessitavam de um toque para começar a te modificar.

Cada vez que se ama, aprende-se sobre a superficialidade e sobre a profundidade dos sentimentos. Aprende-se sobre tolerância e o tempo necessário entre pensar e agir. Aprende-se sobre escolhas. Entre a mágoa e a compreensão. Entre os limites e as regras. Entre o que você era e o que você está se propondo ser.

Cada vez que se ama, aprende-se sobre integridade e o amor próprio. E aprendemos a amar o outro como a nós mesmos. Não mais que a nós mesmos.

Cada vez que se ama, aprende-se que o mundo é mesmo inconstante. E aprendemos sobre a inconstância de nossa natureza volúvel aos desejos e às novidades. Aprende-se que os estímulos externos são infinitos e que iremos diversas vezes denominá-los de "provações". Aprende-se que se você não mudar junto com o mundo, você irá ficar para trás, mas as ações não voltarão para que você conserte¹.

Cada vez que se ama, aprende-se sobre o desapego. Que o desapego é um "insight" intuitivo, que não dura tempo. Dura um novo amor...

Pq o amor é uma dança sedutora em círculos.
De olhos, bocas, corpos e ações que não devem findar jamais.


D.


¹ 'Consertar' é o verbo que mais gosto...




D.

domingo, 26 de setembro de 2010

Intuição




Era intuição.
Algo que não se sabia de onde vinha ou ao certo o que provocava.
Era uma força que sutilmente explorava os sentidos e os prendia em um só pensamento.
Sinais que os olhos combinavam em cores para dar forma humana ao que mais tarde seria desejo de toque, que transformava em música todas as músicas, que acelerava vontades e diminuía distâncias...

A intuição agora era barulho para dentro, fazendo festa, despertando os mesmos olhos coloridos para algo reconhecido. Para cada momento contínuo em que se viam as mesmas letras se desenharem e se repetirem. E ainda sem saber pq, as mãos sugeriam o mesmo ritmo e permaneciam a se atrever a chegar mais perto.

Ainda que escondida em rompantes obscuros e cautelosos, a intuição continuava a seguir sinais. Cada palavra, cada movimento era uma nova diretriz. Mansinho...

Sabe-se do susto do pensamento, "O que é isso?". Principalmente quando a experiência não traz vestígios rigorosamente bons sobre o passado. Sabe-se da dor e da solidão forçada até então.

Como estar certo se a verdadeira boa intuição tem que vir necessariamente de um interior limpo, sem vestígios do que ficou para trás? Sem preceitos ou poréns? Sem faces, nu? Se vier do oco, de sua casa morada íntima interiormente lavada por lágrimas e chuva, deixa estar...

Se há porto de intuição...
A alma vai ficando exposta.
Deixa ventar um pouco mais...


D.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Árvore I

Gosto de árvores. A dor da renovação das árvores.
Não deve ser fácil ver nascer da sua própria seiva, da sua alma, frutos e folhas e, como matéria descartável, deixá-los cair ao chão.
Não conheço melhor exemplo de desapego. Não conheço melhor exemplo de nosso egoísmo refletido na natureza, particularmente nas violetas.

Violetas são florzinhas que ousamos colocar em pequenos vasos dentro de um espaço minúsculo de sol dentro de um apartamento, assim como ousamos fazer com nossas próprias vidas, seguindo insatisfeitos e imutáveis à troco de pouco.
Deixamos lá. Sem espaço para desapego. Sem espaço para o incontrolável. In loco.
Vamos cuidando da florzinha, aguando, retirando as folhas ruins.
Até que um dia, como reflexo de nossa natureza indomável, cansamos do pouco.

E a florzinha morre...
Por falta de quem lhe retire o que é inútil.
Por falta de quem lhe dê o novo ou ao menos renove o que há de melhor em si.
Por falta de quem cuide para que suas pétalas continuem refletindo a cor mais vibrante escondida debaixo da poeira de asfalto que entra pela janela.

Ela morre. Então ficam folhas e violeta inteira no chão.
E mais nada. Nunca mais.


É você o responsável pela direção dos seus medos.


Pra vc, leitor, escutar e pensar nos seus passos...
http://www.youtube.com/watch?v=JPopSaNOYCM


D.

domingo, 29 de agosto de 2010

[__ Espaço reservado ao grito __]



Tremenda vontade de gritar.
De gritar o grito negro e o grito branco. O vermelho e o amarelo.
Cada cor tem seu grito, cada grito a sua luz de velocidade do som.
Estou com vontade de grito. Mas grito interno, depois externalizo.
Sinto como se fosse necessário me acordar aos gritos sem que ninguém os ouça.
Só eu.
Tenho receio e timidez aos gritos que necessito gritar.
Tenho medo e me faltam forças ao gritar.
Tenho pressa regada à prudência forçada.

E preciso das ondas.
Das ondas que explodem sem receio, preciso olhar ondas e vê-las.
Preciso vê-las em seu vai e vem, indecisas ou determinadas.
Preciso vê-las aos gritos, esconderem-se entre pedras e penhascos.
Preciso vê-las sem medo do que vão tocar.
Preciso vê-las despencarem em seu medo de grito ao beijar a areia fina.
Preciso vê-las calmas após gritarem, explodirem.
Preciso vê-las rompendo.
Preciso vê-las voltarem atrás transformadas em almas calmas, ondas baixas.

E depois.
Ah... depois o vento.
A brisa e a vontade de ser onda e de ser silêncio.
Ser vontade do que já se é, para aumentar a vontade de ser.
E depois, coragem.



D.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

... à vida





É isto o que quero da vida. Observar que as folhas que caem não deixam de ser belas. Entender que tudo se transforma e se renova no mesmo ser sem que ele mude a essência do que é. É isso o que quero da vida: a simplicidade do que é momento e a complexa perfeição do que jamais será modificado.


D.

Do salto eu não desço mais...





Ainda que oscilando entre a criança ingênua e suas brincadeiras cheias de pureza feito querer mostrar ao mundo a liberdade que se sente ao soltar uma pipa e entre uma mulher que já carrega nos ombros grandes responsabilidades e o peso de ser quem se é, ela agora para.

Ainda que deslumbrada diante de um mundo cheio de novidades, informações e palavras, ainda que escreva textos longos e densos sobre o amor, que passe horas falando e contando histórias, ainda que devaneie sobre o futuro incerto que a rodeia e enche sua cabecinha de menina mulher de dúvidas, ela sabe bem o que quer.

Sim, ela sabe bem o que quer. O que quer a menina... e o que quer a mulher.

A menina talvez mostre só o abraço apertado meio destrambelhado, no meio do estacionamento. A mulher apenas não se conteve de tanta saudade que sabe que irá sentir e se escondeu no abraço.

Usar salto alto e vestir uma roupa formal para andar em um mundo adulto ao qual acaba de se enxergar não é tão fácil... desequilibra muitoo para o lado criança até aprender. É bem mais fácil usar o tênis all star dourado no pé e ir por aí.

Menina ou não, hoje ela entendeu muito bem o recado do destino.


Küsse
D.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Mude - Edson Marques

Mude,
mas comece devagar,
porque a direcção é mais importante
que a velocidade. Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa. Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa. Tome outros ónibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os seus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias. Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos. Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda. Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas. Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances. Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo. Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias. Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida. Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações. Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.

1 Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa. Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários. Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.
ame cada vez mais,
de modos diferentes. Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias. Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores. Abra conta em outro banco.
Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus. Mude.
Lembre-se de que a Vida é uma só.
E pense seriamente em arrumar um outro emprego,
uma nova ocupação,
um trabalho mais light,
mais prazeroso,
mais digno,
mais humano. Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo. E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa,
longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez. Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.
O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda !Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!!

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Sabotagem



É preciso parar de se auto sabotar
É preciso parar de se auto
É preciso parar de se
É preciso parar de
É preciso parar
É preciso
É...

É!

No dia em que não nos restar mais nada a ser feito, teremos que assumir os desejos, as vontades e os medos, as certezas que ficaram caladas no caminho mais fácil, a vontade de gritar. A gente não pode ter vergonha do lugar onde mora a nossa felicidade. A gente não pode deixar de tentar...

É...
É preciso
É preciso parar
É preciso parar de
É preciso parar de se
É preciso parar de se auto
É preciso parar de se auto sabotar


- Foto: Renata Ludwig